2 de fev. de 2011

Há tempo para todas as coisas

Passei um tempo no deserto.
Aprendi a fechar os olhos por
Causa das tempestades.

Agora voltei mais humilde.
Por muito tempo fui ao extremo.
O sol que me punia e o frio

Que me doía os ossos.
Agora estou no equilíbrio:
O sol para as flores e os

Seus beijos para o tempo frio.
Fui derrotado, mas não virei pó.
Foi necessário um retorno,

A solidão e o desespero.
Foi tudo necessário para uma projeção,
Para um lançar-se.

Toda a angústia foi apenas o arco.
O arqueiro me fez cortar o espaço
E o tempo em velocidade mansa.

Dor também é matemática

Posso escrever toda dor.
Porque estou dentro do vazio.
E o que fere é a falta.
E se falta é porque não tem.
E se não tem, logo

Está vazio.

E tristezas nada mais são
Do que matemáticas
Impiedosas, onde há
Uma lógica
Cortante.

Uma nuvem...

Quando no torpor da hostilidade existencial, parece que o corpo dele se esfacelaria com a respiração última e o adeus único. Derradeira vez de agonia. Derradeira vez que a morte o incomodou. Então deixou-se de ser. Ou voltou a não ser, visto que nunca foi, não era; esteve apenas. Densamente viveu. Não, não viveu. Porque o que é denso para a alma do homem, mais é árduo para o coração.
Cambaleou nos seus caminhos tortuosos, às vezes, com a música de algumas risadas que as guardou com carinho. Porém, não conseguiu mais lembrar-se do som nem do amor que muitas pessoas sentiram por ele. Engrenagem enferrujada da produção em larga escala, portanto, fora substituído.
Teve amores, entretanto, sua conturbada vida os fez ir. E foram com lágrimas reais e passos sem volta.
Entristeceu-se na solidão dos barracos de fundo e de aluguéis caros. Entristeceu-se pelos favores que nunca pode retribuí-los e por ver novelas por não ter o controle.
Também alegrou-se algumas vezes visto ser quisto entre os seus.
Hoje, encontra-se perdido entre o tempo e o vazio desse tempo e o frio desse tempo.Sua vivência é inóspita e não se consegue acesso a ele. Não se consegue resgatá-lo. Já creu em Deus e com lágrimas e soluços desesperados suplicou-Lhe inexoravelmente por dias melhores. Entretanto, os dias se seguiram hostis. E o que era para ser a seu tempo, estava-se perdurando além do necessário e do eficaz. Passava-se da conta a ponto de a humanidade dele tornar-se ódio, indiferença e lógica cortante com a desqualificação dos sentimentos...vendo a vida social apenas como um xadrez bem articulado e movimentos tão certos, previstos, marcados. Um grande teatro. Trágico. Onde todos morrem, inclusive o rei. Onde cada um acha que seu “movimento” é importante, até que chega um câncer, um infarto, um acidente e desqualifica a imponência efemeramente humana. A importância do poder se torna tão substancial quanto uma sombra.

Penetração

Que seja jactante
E disseminador
Que se possa gozar
Para além da juventude.

Não só nos jardins,
Mas nos salões, nas alcovas,
Nos escaninhos de onde moram
As virgens e as matriarcas.

Oh benção que permite
A humanidade mais profunda.
Que vai da carne e da sinapse
Para além eterno,

Seja a navegação extásica
Nos grandes lábios das amantes,
Nos seios virginais da inocência
Para a polinização de cada flor.

Virilidade suntuosa que desliza
Sobre toda sorte de líquido e entra
Como vida latejante, faz prosperar
Ais e goza profundamente.

O outro em excesso

Sem você não tenho meio.
Sou como um filho natimorto
Que no espaço entre a breve
Vida e a morte, não houve luz.

Metáforas...

Sobre o vento e sobre a sombra
Tanto habito quanto sou efêmero.
Sou testemunha da mudança de estação.
Vi árvores frondosas caírem pela raiz.
Algumas não suportaram o próprio peso.

Outras foram devoradas pelo fogo de cigarros,
De relâmpagos, de restos de fogueiras e balões
Os quais o sonho infantil não foi leve o suficiente
Para manter o vôo. Não foi suficiente para a
Insustentável leveza pueril.

Vi as folhas que caiam, que dançavam e desnudavam
Tão imponentes matas.
Observei e provei as lágrimas daqueles que
Ficaram sob a égide do sol. Acompanhei os passosDaqueles que sentiam dor em seus pés por pisarem em terra árida.

Ciclo eterno

Toda
Estrutura se constitui e se
Desconstitui indefinidamente.
A vida vira morte e a morte vira vida.
Basta a eternidade para todas as coisas.
Há o tempo da gravidade e da desgravidade.
Assim foi no início quando tudo explodiu e
Assim será quando as forças se condensarem
Novamente em uma densidade absurda e
De poder atômico universal.
Nascerá de novo tudo e
Morrerá de novo tudo.
A lógica do mundo é
Muito pre
Visível.

Falsa foto

Vi uma foto empoeirada onde todos sorriam.
Onde todos eram jovens, amigos e tinham sonhos.
Uma foto guardada no fundo de uma caixa,
Dentro de uma gaveta.
Uma foto que registrou a ilusão e a constatação


Da efemeridade do tempo.
Cada um para o seu canto.
Todos se tornaram estranhos.
Alguns com suas famílias,
Outros com suas solidões.
Outros mais, boêmios e saudosistas.


Presos ao tempo inexistente e às reminiscências de outrora.
O tempo, que se tornou estático, foi um tempo enganador.
Os sorrisos não acontecem mais de forma tão natural e vívida.
Nada mais tão brilhante quanto àqueles olhos.
Tudo ficou antigo com algumas mortes e muitas rugas.
Tudo ficou amarelado, até o sorriso.

Sala

Foi o último gole e a loucura
Abateu-se sobre a cabeça dele.
A bebida acabou.
Os amigos sumiram.

Quando acordou, a barba e
Os cabelos já estavam brancos,
A cara desfigurada:
A velhice as células atacou.

Foi o último trago da erva
Verde e abstraiu o universo e
Descobriu uma fórmula: o que
Resta é o amor ou o oposto dele.


Quando passou o efeito,
Ficou antigo e descobriu
Que sempre se acaba
Dentro de um sistema.

Ele contemplou seu cachorro
Deitado em frente à porta, em
Sono manso de sentinela.
Ele também dormiu enquanto a TV ficou chiando.

Um homem de Óculos

Um homem de óculos
Com lágrimas tão transparentes
Como sua lente.
De olhos negros, tão vermelhos
Que revelam a sua dor.

Um homem de expressão grave
E palavras cortantes.
De sombra mais viva do
Que seu próprio corpo.

Um homem de óculos que lê, relê
E lê mais uma vez uma carta.
Uma carta de amor.
Uma carta de amor.

Um homem que se embriaga
Em lembranças e dorme
Tão pesado sono porque
Não suporta tanta saudade.

Daniel de Castro

Voar

Ele poderia se matar, se
Enforcar com umas roupas,
Uma corda ou com o cabo da antena de tv.

Seria mais rápido do que a dor lenta
Que ele sente.
Poderia também dar um tiro na cabeça.

Seria muito mais eterno do que a falta
Que ela faz.
Poderia cortar os pulsos

Só para ver o sangue anêmico escorrendo pelo
Chão, e, no finalzinho, pingando.
Não se importava de morrer assim.

Já estava morto antes de nascer
E morre a cada instante
Por não tê-la mais.

A vida foi um fardo. Foi um cálice de líquido
Amargo do qual muitas vezes teve que tomar.
Era pura cicuta. Só vivia quando a beijava.


Ele poderia pular de um prédio bem alto.
E na hora em que estivesse sentindo o vento
Em seu corpo, ele lembraria do sorriso dela.

Passará um filme na cabeça dele.
Vai lembrar de como faziam amor e
Depois dormiam sono profundo.

E quando ele não sentir mais o vento
No rosto, lá estará, no asfalto,
Em sono profundo.

Daniel de Castro